quinta-feira, abril 27, 2023

 A-fetar (melhor lido ouvindo Antes das seis de Renato Russo)

Pela impossibilidade de falar mais, pensei em escrever. Pensei muito. Não sei se escreverei tanto.

Pela impossibilidade de conversar, escrevo pra falar comigo primeiro. Sinto falta de ouvir e de ser ouvido. Mas também sinto falta das letras desenhando-se na tela na velocidade das emoções intensas. Talvez minha única certeza inabalável (até aqui) é a de que a escrita me espelha melhor. Minha alma é escrita.

Como para mega sensíveis não há coincidências, ao relembrar a trilha sonora dos idos anos 90 e uma adolescência toda cheia de sonhos fui ao mercado abastecer-me com originais geladas. A tristeza é mais feliz alcoolizada. E a vida é triste demais. No mercadinho mais bem estilizado musicalmente tocava a canção da novela do primeiro “crush”: era o sinal! Eu deveria escrever.

Quando pensei sobre os afetos, sobre ser afetado... Talvez eu tenha sido mais. Numa incógnita contradição, não ser afeto é a melhor forma de afetar. Ou a pior. Só sei que esperei todos os dias por algo que não conheci, e sinceramente, há uma dura certeza advinda da exatidão científica de que não conhecerei. Preciso fazer um esforço enorme para lembrar qual a sensação (vagamente sei ser boa) de um afago no rosto. Um pária curitibano facilmente torna-se intocável. Enquanto sou tocado pelas vidas que reconheço todos os dias no ofício que escolhi, sou invisível. Sei que também me escondo, contudo, não encontro poros de abertura pra existir além de um mísero e prosaico professor.

O fato é que encontro um vazio que se abre constantemente em mim. Não tenho objetivos. Pela classe, preciso de emprego e salário. Mas e a finalidade deste quase meio século? Não sou afeito a crenças em finais felizes. Não conheci nem começos, por que os finais deveriam conhecer felicidades? Iniciei por teimosia, que se fosse por inteligência, teria desistido. A vida é ausência demais. Ainda assim, busquei afetos em todos os lugares, até os mais improváveis e inóspitos. Para alguma coisa deve servir ter nascido em maio.

Nunca fui o desejo, o afeto, a saudade, o apego, o amor de ninguém. Talvez dos gatos, mas por falta de opção. Eu nunca fui opção. Por isso, acho piegas e irritativo o mantra contemporâneo identitarista “resistir não é opção”. Nesta luta liberal individualista do século XXI, do lugar de “cala” (a boca), tudo se romantiza e no glamour açucarado dos egos e das contas bancárias infladas as frases-bombas explodem num sentido evasivo e (mal) afetado.

Para ser desejado, como ser, como corpo ou como insubstituível (ainda que instantânea) companhia, antes é necessário ter valor. E valor vem do orgulho. Do seu contrário vem o fracasso, trilha conhecida da identidade deteriorada. Como se afeta um corpo sem valor? Como se produz presença num ser da ausência? Como se inscreve a falta em quem é pleno de escassez? Onde se desliga o motor da carência? Onde está o tal privilégio colorido que eu deveria ter? A única cor que eu conheci foi o cinza nublado.

Indago, pois, há uma fúria que me invade. De onde vem as vitórias tão alardeadas? Onde guardam seus aplausos? Os abraços são reais? E esta tal “potência de vidas” se encontra em qual esconderijo?

Sou íntimo da violência. Minha imponente tutora, presente em meus dias e noites de dentes à mostra buscando o mínimo de defesa. Sou irmão do exílio. No insulamento de uma vida que já se alonga demais, sou defeito e causa de um coletivo que não me inclui. Sozinho, ilhado nos meus pensamentos e sentimentos sou quem ama estudar o social. O mais distante é o impossível para mim. A vida tal como Coringa, ri em desespero das minhas escolhas. Por que minha paixão por tudo que me foi privado? Que espécie de perversão meu espírito aceitou para amar tudo que me faz falta?

O princípio da negação “a” talvez explique o quanto me afeta a exiguidade dos afetos. Eu, como feto teimoso que por idiota insistência tornou-se nascido, sou o A-feto.

Renato sempre esteve certo.

 

sábado, fevereiro 25, 2023

A carga



The Last of us está se tornando uma das top 5 do meu ranking de séries favoritas. Não imaginava, por ser uma temática que não curto - zumbis - e ser baseada em um game. Entretanto, acabei sendo atraído, aguardando ansiosamente toda semana um novo episódio e suas histórias. 

Esta cena do último capítulo me trouxe novamente para outro texto escrito em setembro de 2023, publicado somente no meu blog. Ellie e eu, somos semelhantes, e semelhantes se atraem. Somos órfãos. Como tal, sabemos que ser órfãos é mais que não ser filhos. É ser um não-filho. Algo incômodo, indesejável. Uma carga. 

Pra além da brilhante interpretação da jovem atriz, a "carga" desta cena me descarregou. Busquei a vida toda afetos para suprir os desafetos vividos na infância e adolescência de um indesejado não-filho. Tantas e tantas vezes fui comunicado que a vida de quem me "cuidava" era insuportável pelo fardo de ter que me "criar", que em algum momento deixei de perceber o quão violento é culpar alguém pela própria orfandade. Você cresce mais forte pois se acostuma a não poder contar com ninguém. Ser sozinho é tua fortaleza, ainda que também a tua maior debilidade. Nesta contradição, você aprende a não poder amar. Amor, este privilégio dos que podem ser amados (cargas não podem). Pra você sobra ser a sobra. Solidão é o teu caminho descaminhado. 

Depois de adulto, você tem uma marca. É o estigma do órfão. Chega a ser tragicamente cômico as perguntas recorrentes para a resposta de que se é um sem-família. "Mas nem mãe, nem pai? E irmãos e irmãs? Tios e tias?" Há uma tentativa de encontrar os antepassados, apenas para garantir que ainda há um familiar. E quando não há, mas há a carga - negativa - que deixaram? 

Pra Ellie eu diria: "Somos órfãos, o melhor a fazer é aceitar o mais rápido possível". Não se adia o inadiável. Talvez um dia a gente encontre outros laços que nos abracem. Talvez um dia a gente aprenda a ser pai ou mãe, sem ter sido filho ou filha. E talvez um dia a gente só encontre paz. 

Por enquanto, Rocky Balboa e Apolo Creed me doam seu tempo-amor humanizando-me como só os gatos são capazes. A carga fica mais leve.




quarta-feira, setembro 07, 2022

Um lugar bem longe daqui – será?


Parece um filme bobo, mas me conduz a lugares nada distantes de mim.
Forte, verdadeiro, exemplar do mundo social e do mundo natural.
"Indelible scars, pivotal marks"
"I make a fist, I'll make it count"

Filmes têm história para mim. São terapêuticos. São chaves que abrem portais. Histórias que se escondem esperando a hora de serem descobertas.

Sou órfão. Não fui. Sou. Talvez, ainda que não quisesse, esta é a experiência mor da minha história. Nenhuma identidade me traduz melhor. Sou tantos, ou nem tantos assim. Sociólogo o que mais me satisfaz. Contudo, para ser sincero mais do que devia, sou órfão.

Sobre isso o filme se debruça. Ser órfão. Outras espécies são mais instintivas. Humanos são sociais, logo coletivos. Nascem dependentes. Precisam de exemplos. Precisam de apoio. Há quem diga que não sobrevivem sem suporte de adultos cuidadores. O filme relata outra história. Outro lugar. E quando quem te ensina a existir não são teus protetores?

Uma das minhas primas recordações é a do anseio por uma armadura medieval. Lembro de passar na rua do meu dia e ver a vistosa vestimenta de proteção num antiquário. Ainda acompanhado de uma mãe, aquela criança sorriu maravilhado pelo espetáculo daquela indumentária e fez o pedido: “Este é meu presente!”. A impossibilidade se deu pela classe social, porém sem nenhum questionamento a mais, como era de se esperar. Minha mãe, massa que me modelou, também não era deste mundo.

Talvez ela vislumbrasse o pequeno guerreiro que havia parido. Seu olhar para meus rompantes de fúria e perseverança traduziam sua desconfiança de que havia mais do que os pobres mortais ignoravam. Só conheci um escudo humano. Durou exatos 13 anos. Treze, aquele número que melhor me representa, a despeito de ter nascido neste dia de maio.

O filme mostra como um órfão sobrevive. Adquire um olhar que vê além dos olhos. Uma coragem que não significa o forçado “desistir não é uma opção”. Existir é o que se tem. Muitos talentos se perdem. Não há como aprender a barganhar atenção com joguinhos de sedução quando o que se busca é cumplicidade. A superficialidade das aparências não existe no dicionário de órfãos. Aqueles deixados ao abandono desconhecem as sutilezas infantis da humanidade. Em grande medida, a humanidade nos escapa. Podemos ser parecidos, imitamos algumas vezes, perfomamos tantas outras, mas não somos iguais. A matéria da socialização é escassa para nós. Aprendemos no silêncio, na observação dos Outros, dos distantes. Somos essencialmente sozinhos.

Somos rompidos, destruídos até. E desta rachadura produzimos outra substância. Somos infinitamente mais fortes, ainda que sem consciência da própria fortaleza. Somos avessos ao talento humano para a mentira. Não se trata de ser moralmente superior, uma vez que não partilhamos do mesmo código (a)moral. Mentir é enganar. Sobreviver das próprias adversidades não te permite este artifício. A rudeza da solidão é espada-mestra.

Amamos a humanidade, ansiamos pela presença. Todavia, nos encontramos no insulamento do eu – local do temor ausente. Assim como a protagonista do filme, nunca conheci nenhum humano/a que partilhasse de mim, do que eu sou. Não conhecemos a linguagem humana, embora tenhamos boa fluência nesse “humanês” pouco partilhado conosco.

Conhecemos o julgamento moralista dos humanos. Suas leis, suas normas, suas regras sem sentido. Seguimos outras. Não sabemos nada da suposta coerência humana. Somos partículas que se encontram na fusão do mundo natural-social. Para sobreviver abdicamos do medo (tão humano) e vivemos feitos de tecido-coragem.  

Nossas verdadeiras confissões vêm dos seus líquidos reveladores. Ouçam-nos ao lado da companhia da bebida de Odin ou do néctar de Baco e conhecerão as mais belas órfãs- histórias! Guerreiros brindam ao narrar seus contos. Tragam as melodias dos bardos e mais narraremos.

No filme a protagonista se apaixona pela biologia e a desenha esplendidamente. A paixão nos move (como lembrou Dante). A arte que me arranca a máscara é a escrita. Amo-a mais que a vida. Ou apenas vivo para a escrita. Desde que não contida, ela e apenas ela, me traduz.

Em tempos antigos, quando era jovem para a humanidade, outro filme me arrebatou: Gênio indomável. História de quem aprendeu que confiança não se pede, posto ser genuína conquista. Violência é habitual na vida de órfãos. Parece um carma, se nos permitissem tal crença. Da violência apreendemos a força do ódio. Se nos odeiam, que nos temam, como ensina Maquiavel.  “Toda criatura faz o que é preciso para sobreviver”.

Humanos dirão que somos feitos de abandonos. É uma verdade. Há outras. Ser órfão é ser abandonado. A ausência fortalece a lembrança. Somos gratos, embora poucos decifrem nossos sinais. Ser amigo de um órfão é ter um eterno guardião. Guardamos o Amor, a Amizade. Mas o código que representamos é maior que as necessidades corriqueiras. Somos feitos de imortalidade. Marcamos como a tatuagem que desenha a pele humana para a eternidade.

O final da história tenta aproximar a órfã dos destinos habituais dos humanos: “felicidade para sempre”, ainda que a Morte – entidade superior à mortalidade humana – não vos abandone. E neste instante, o filme me afeta demasiado. A cena do reencontro, daquele feliz novo encontro, com sua “má” lembrou-me que fui pai antes de ser filho. E setembro traz a ausência do único pai que se dispôs a amar um filho-órfão. O luto tem sido meu material de aprendizado, minha companhia na ausência da tua certeza. Há quase um ano ouvi o questionamento “Por que tamanho pranto?”, em resposta imediata disse uma semi-verdade: “Porque foi o adulto que sempre quis conhecer quando criança”. Hoje, conhecendo-me mais, assim como o próprio descaminho trilhado, diria que apenas os órfãos sabem da ausência dos pais.

Te espero. Venha me buscar.     

segunda-feira, agosto 22, 2016

Eu quero um esquadrão suicida por semana!

Aquela incômoda nostalgia.
Houve um tempo em que era comum estar por aqui. Fui embora.
Nem motivos eu tenho pra voltar.
Ainda assim, queria muito conversar.
Estive conversando.
O que poderia ser?
Não, não poderia.
É tão estranho. Passo meses bem guardado, e em segundos, acordo sem dormir.
Sempre sonhos. Tento não acordar. O dia chega.
O silêncio. A ausência. O nada.
Nenhuma resposta.
Antes prioridade era indagação, e onde estou poderia ser a solução.
Contudo, a realidade é inimiga da ilusão. Acordar é preciso.
Prazos, entregas, cobranças, ódio, convites.
Lembro de quando ainda éramos iniciantes. Meus olhos já enxergavam. Meu instinto procurava.
E num instante, numa resposta, tudo começou.
E noutro, sem resposta. Acabou.
E o que eu esperava?
Ainda há espaços pra ilusão?
Idiota. Sentimento. Eu.
Quando é que eu vou entender que não posso?
As teorias mentem. Os casos empíricos existem. Não há resistências. São nojentos.
Pelo menos, as condições materiais me fazem inexistente.
Hoje, acordar, vento frio e velocidade, semear sociologia, cultuar bíceps, tríceps e afins, ser pós-estudante, jogar conversa fora, entendiar-se sem séries, forçar leituras e acostumar-se novamente a não ouvir o som do chamado.
Nem é saudades. É só uma tristeza chata de mais um quase. Ou outro nada a ver.
É, passou. Passado.
Sem futuro.
Não há presente.
Estou partindo. Não ao meio.
Volto a mim. E chega de realidades!
Viva o cinema!
Vício dos solitários. 

segunda-feira, fevereiro 01, 2016

O silêncio e a ponte.

Como se houvesse um espelho sem reflexo...
Talvez? Será?
Sempre fui quem carregou o mal.
Sou conhecido da culpa desde muito antes.
Nem existia e já tinha responsabilidades....
Enfim, o mal sempre foi meu.
Onde estavam os ímpios?
Para onde escarraram a misericórdia?
Sou guerreiro. Tenho espada.
Meu escudo. 
Ou mestre? Do nada?
Como se o meu mal fosse pária. 
Meu rosto elmo.
E a a alma, desconhecida.
Lamúria de uma escara. 
Retorcendo-me em descuido e abandono de mim mesmo, soltei-me ao fundo das águas.
Sem lágrimas. Estou sozinho. Nem elas.
Fui sozinho. Serei sozinho. Estou longe e não volto.
Porque às vezes é triste ser só as respostas.
Nunca conheci indagações.
A sentença: sempre uma condenação pública. 
Em coro, todos dizem:
- "Sofra, morra, desista e não suje!"
O nojo, companheiro de estrada. Na estada do acaso.
Por acaso há acasos?
Despi-me em coragem porque a verdade é uma só: não sou igual. 
Meu sinal é menos.
Nulo, na verdade.
Eu igual a nada.
Nada = Eu.
Sem vida. Sem alma. Sem clemência. Como se só a minha mão tivesse peso...
Eu não tive culpa? Ora, sempre fui culpado, até que (eu) prove o contrário.
Não provo, não digo. Não choro. Já fui.
Aqui jaz o nada. 
Grato por me ouvir de longe. 
Não, não sei se mereço, ainda assim distante você não me deixou.
À DeusA. 

quinta-feira, abril 09, 2015

Teu diário

Meu amigo, vamos tomar nosso chá? Sei que não há mais espaços incólumes dos olhares maldosos, entretanto aqui, somos invisíveis. Os olhos que não nos olham estão voltados para outros lugares.

Hoje queria tanto que estivesse aqui comigo. Também não tenho amigos, e se fosse enterrado, seria sem alarde. Apenas um alívio.

Antes de morrer queria visitar teus passos. Conhecer teu quarto e ver da janela o que vias. Caminhar até teus bares e lá te ouvir. Como é tua voz? Sabia que da minha janela  vejo o Mercado Municipal? Fui visitá-lo para te sentir mais perto. Imagino que teria sido prazeroso.

Guardo a escrita para a noite, como aprendi contigo. Tenho calado. "Ainda não consegui não sofrer com a minha solidão". Como pode me dizer tão bem? Olhar pela janela me faz chorar de tuas saudades. És meu espelho e nada me rouba de tua presença.

Tuas páginas de Bernardo são meus diários. Como posso encontrar tão longe minha alma?

"Como nunca descobri em mim qualidades que atraísse alguém, nunca pude acreditar que alguém se sentisse atraído por mim.." Porque contigo? Nos tempos recentes me disseram da socialização. Como se fôssemos socializáveis. Não há social para os "aleijados de espírito".

Tenho a "coragem intelectual" de reconhecer que não passo de "um farrapo humano, aborto sobrevivente, louco ainda fora das fronteiras da internabilidade", Como sabe dos abortos?

Amigo-alma, como podes compreender a nossa verdade? Falava eu do binômio piedade e náuseas, quando te vejo romper-me nisto: "Nem posso conceber que me estimem por compaixão, porque, embora fisicamente desajeitado e inaceitável, não tenho aquele grau de amarfanhamento orgânico com que entre na órbita da compaixão alheia, nem mesmo aquela simpatia que a atrai quando ela não seja patentemente merecida; e para o que em mim merece piedade, não a pode haver, porque nunca há piedade para os aleijados do espírito. De modo que caí naquele centro de gravidade do desdém alheio, em que não me inclino para a simpatia de ninguém",

Como está teu chá? Há veneno ainda? Eu não tive perdão. E a toxina foi inoculada pelo ódio que me feriu. Meu corpo também é aleijado, e a falta da cera foi lembrada. Não conheço a piedade.

E como poderia ser? "Sofri a humilhação de me conhecer".

E sobre o capricho, que nos disseram ser excesso de amor, próprio dos outros, tua voz é cortante. "Compreendi que era impossível a alguém amar-me, a não ser que lhe faltasse de todo o senso estético - e então eu o desprezaria por isso; e que mesmo simpatizar comigo não podia passar de um capricho da indiferença alheia." Quem distante nutriu esse pouco apurado senso estético, talvez caminhe apenas para a compaixão. Não amor, este não nos pertence.

Amigo, durma comigo. Acorda-me em teus mares. Saio de mansinho, nunca ouviram e não seremos estardalhaços. Fique aqui, faz-me ser para sempre como és.

Descansaremos e finalmente nossos quartos dirão quem somos.





terça-feira, abril 07, 2015

Fernando Pessoa citando abjeção, e me descrevendo:

Diário lúcido
A minha vida, tragédia caída sob a pateada dos anjos e de que só o primeiro ato se representou.
Amigos, nenhum. Só uns conhecidos que julgam que simpatizam comigo e teriam talvez pena se um comboio me passasse por cima e o enterro fosse em dia de chuva.
O prêmio natural do meu afastamento da vida foi a incapacidade, que criei nos outros, de sentirem comigo. Em torno a mim há uma auréola de frieza, um halo de gelo que repele os outros. Ainda não consegui não sofrer com a minha solidão. Tão difícil é obter aquela distinção de espírito que permita ao isolamento ser um repouso sem angústia.
Nunca dei crédito à amizade que me mostraram, como o não teria dado ao amor, se mo houvessem mostrado, o que aliás, seria impossível. Embora nunca tivesse ilusões a respeito daqueles que se diziam meus amigos, consegui sempre sofrer desilusões com eles — tão complexo e sutil é o meu destino de sofrer.
Nunca duvidei que todos me traíssem; e pasmei sempre quando me traíram. Quando chegava o que eu esperava, era sempre inesperado para mim.
Como nunca descobri em mim qualidades que atraíssem alguém, nunca pude acreditar que alguém se sentisse atraído por mim. A opinião seria de uma modéstia estulta, se fatos sobre fatos — aqueles inesperados fatos que eu esperava — a não viessem confirmar sempre.
Nem posso conceber que me estimem por compaixão, porque, embora fisicamente desajeitado e inaceitável, não tenho aquele grau de amarfanhamento orgânico com que entre na órbita da compaixão alheia, nem mesmo aquela simpatia que a atrai quando ela não seja patentemente merecida; e para o que em mim merece piedade, não a pode haver, porque nunca há piedade para os aleijados do espírito. De modo que caí naquele centro de gravidade do desdém alheio, em que não me inclino para a simpatia de ninguém.
Toda a minha vida tem sido querer adaptar-me a isto sem lhe sentir demasiadamente a crueza e a abjeção.
É preciso certa coragem intelectual para um indivíduo reconhecer destemidamente que não passa de um farrapo humano, aborto sobrevivente, louco ainda fora das fronteiras da internabilidade; mas é preciso ainda mais coragem de espírito para, reconhecido isso, criar uma adaptação perfeita ao seu destino, aceitar sem revolta, sem resignação, sem gesto algum, ou esboço de gesto, a maldição orgânica que a Natureza lhe impôs. Querer que não sofra com isso, é querer demais, porque não cabe no humano o aceitar o mal, vendo-o bem, e chamar-lhe bem; e, aceitando-o como mal, não é possível não sofrer com ele.
Conceber-me de fora foi a minha desgraça — a desgraça para a minha felicidade. Vi-me como os outros me veem, e passei a desprezar-me não tanto porque reconhecesse em mim uma tal ordem de qualidades que eu por elas merecesse desprezo, mas porque passei a ver-me como os outros me veem e a sentir um desprezo qualquer que eles por mim sentem. Sofri a humilhação de me conhecer. Como este calvário não tem nobreza, nem ressurreição dias depois, eu não pude senão sofrer com o ignóbil disto.
Compreendi que era impossível a alguém amar-me, a não ser que lhe faltasse de todo o senso estético — e então eu o desprezaria por isso; e que mesmo simpatizar comigo não podia passar de um capricho da indiferença alheia.
Ver claro em nós e em como os outros nos veem! Ver esta verdade frente a frente! E no fim o grito de Cristo no Calvário, quando viu, frente a frente, a sua verdade: Senhor, senhor, por que me abandonaste?

sábado, abril 04, 2015

Para o eclipse.

Ontem eu voltei às telas. Tempos e foi com Hilary Swank. Não chega a ser como foi antes, contudo não falarei dos outros.

Falo do que senti ao ver. Ver me faz sentir. Andar me faz sentir. Sempre disse de vínculos e fazer parte. Não faço ouvir. 

Eu vi. Descobri que estava certo o tempo todo. Nunca foi o corpo, sempre é a alma. Vínculos não precisam de nomes. Amor, amizade, companheirismo, cumplicidade. Nada eleva ou descreve. Ser perfeito é ser parte. É entregar e mergulhar. É fazer do outro o eu, e o "eu é outro". 

Lembrei desses dias, noutra lua, noutro eclipse, do que Renato me dizia: "uma menina me ensinou quase tudo o que eu sei". E aqui, é mais fácil não esquecer. Passar de bike, mesmo que em instantes, o aroma adocicado dos chás, lembram as eternas conversas.E eu entendo que o que busco é bem menos do que me pedem. Queria apenas as horas de convívio, e conhecer outro mundo pra mostrar o meu. 

Não sou feito de vingança. Aquele que se volta à punição perde sempre. Nada pune melhor que a indiferença. E sou apenas igual. Há poucos. Como disseram: procuro ver e procuro quem me veja. 

Assim, convenço-me sem nenhuma dificuldade que aquilo que se critica no outro, o eu repete todos os dias. E não é assim nas cenas mais comuns do hoje? Se o ontem era repelido e dito como o grande monstro, com direito a apedrejamento, porque hoje é igual? Talvez a resposta seja que sejamos iguais, e assim, não há porque condenar. Portanto a punição é desnecessária. 

O tempo foi e sempre o guardião. Suas chaves tem me acompanhado. Quando fiz o teste e foi 31, menos que 60, violentamente eu já sabia. Adestramento trouxe espada, escudo e estratégia. Estarei lá sem medo.

Não foi porque amo demais o eu. Amo demais o outro. O outro que eu conheço e me conhece. A singularidade será sempre o ideal. 

Deixo fluir e canto com a maturidade que é nossa: Feliz encontro, feliz reencontro e feliz seja nosso novo encontro! Na paz e no Amor dos Deuses! Evoé.




terça-feira, março 31, 2015

Nesta lua crescente

De frente prum hotel enxergo a doce tristeza da solidão. Sem meus olhinhos azuis me contando em afagos que sou mais. 
Enfim nasceu da necessidade de responsabilidade ser irresponsável!
Chegando no últimos 19 anos estou só. Destruído. Queria ouvir vozes, acordar e saber que tudo passou. Ainda assim, não posso desistir. E lá estarei novamente, espada, escudo e a força de todos os que vieram antes. 
Aguardo ainda o reencontro com os amigos verdadeiros. 
Talvez eu fique muitos dias sem falar. Não há voz sem ouvir-se. 
Haveria ainda esperança se lesse emails ou uma pequena mensagem. 
Não haverá. Nunca haveria. Quem sempre lê e não responde?
Porque? 
Onde estaria minha paz?
Que o sono seja o companheiro inseparável. Se pudesse escolher, meu casamento inviolável seria com ele. E dormiríamos para todo o sempre!
Não me deixe, não me esqueça. Este é um pedido, ainda que improvável, não sou bom em probabilidades. Longe alguém ouve?

"As coisas que amamos nos destroem todas as vezes, rapaz. Lembre-se disso." George R.R. Martin. 

terça-feira, março 17, 2015

A tragédia pessoal

Eu não sei nem mais o que dizer. Sei tão pouco. O que sei é que agora eu preciso dos meus amigos Fernando e Renato. Preciso ouví-los de perto. Hoje longe é um lugar que existe.

Ser supérfluo é terrível. Minha história é disso. Rompe-me o silêncio e a porta da rua estará lá. E agora não tenho alternativas. É tudo tão fácil na terra das facilidades...

Como será ser desta casta? "Oh, você me abusou!" E o que é abuso?

Do que se trata a amizade? De que se trata a maldade? Donde estava a lealdade e cumplicidade? De um resto que restou?

Meus olhos não fecham. Minha alma não abre. Meu peito estoura. Onde está o ácido?

Queira por favor apagar as luzes. O show (de horrores) acabou.

E como Ela, somente eu saberei o porquê. Mas não haverá uma infância a ser perdida em acusações.

Minha história não tem personagens.

Me esperem amigos.

quarta-feira, março 11, 2015

Porque Bernardo Soares sabe o que é ser Pessoa

"Sinto o tempo com uma dor enorme. É sempre com uma comoção exagerada que abandono qualquer coisa. O pobre quarto alugado onde passei uns meses, a mesa do hotel de província onde passei seis dias, a própria triste sala de espera da estação de caminho de ferro onde gastei duas horas à espera do comboio — sim, mas as coisas boas da vida, quando as abandono e penso, com toda a sensibilidade dos meus nervos, que nunca mais as verei e as terei, pelo menos naquele preciso e exato momento, doem-me metafisicamente. Abre-se-me um abismo na alma e um sopro frio da hora de Deus roça-me pela face lívida.
O tempo! O passado! Aí algo, uma voz, um canto, um perfume ocasional levanta em minha alma o pano de boca das minhas recordações… Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância. Quando os evoco, toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas."

quarta-feira, março 04, 2015

Meu sorriso continua de óculos escuros

Cansaço.

Muito. Tantas notícias. E aquela tradicional pose final não houve. 
Minha tranquilidade refletindo minha coragem. Pois que é minha sorte.
Volto para as origens para poder licenciar. Falta tão pouco.
Acabou mesmo?
Em meio há tanto desencontro, o melhor momento do dia é a viagem. Suor, esforço, canções, sorrisos e duas rodas. Acelero não em busca da pressa, quero a vida. Mais leve. E quando será?
Aqui sou o intruso. Isto. Minha presença indesejável é foco de problemas. 
Quero tanto sair. De tudo. 
Lembro dos agradecimentos. E a masculinidade sendo reverenciada, dado que ao ser vivida, me pertence trazendo outros ares. 
Conversas, risadas, cerveja, leveza. Amizades. Como são diferentes. Agora são minha escolha.
Quero sair. Preciso.
Quero ouvir o dia e a noite sem perturbar e ser perturbado. 
Quero ser amigo, não apenas para ouvir. Quero voz. 
É tão pouco as promessas. Não me interessam. Quero mais.
Pra melhorar, soube daquela socióloga nada tropical. Como me encanta ver sabedoria em palavras. Genial sua interpretação. Alguns segundos e me estimula conhecer seus tons. 
Me cansa essa reprodução do mais do mesmo, dos jargões, das disputas egóicas e perversas e me incomoda sua maldade. E o senso comum refinado ganhando ares de ciência. Paciência zero.
Enfim, faz dias, mas hoje em especial, queria apenas um abraço. Queria conversar longamente. Queria saber, como descobri que Eva Illouz também concorda comigo, que não há nada que seja mais perseguido que a maravilhosa certeza (ainda que passageira) de que somos singulares.

Se eu pudesse, eu pediria. Um abraço e uma conversa. 
Mas e alguém ouve? Pior, e alguém quer me ouvir?


domingo, janeiro 18, 2015

Um bastardo guerreiro

Entre leituras e sonhos, encontro meu nome. São os doces sons das batalhas da outra Terra que me elevam. 
Após os 180 minutos, ou melhor 360, não deixei a sala. Quase solitário - como tinha que ser - permaneci insólito, imóvel, absorvendo a canção-transporte. 
Sou deste mundo. Daquele. As runas em minha pele são a promessa da eternidade. 
Tudo aqui me entendia. Incomoda. Sorrisos e alegrias profanas. A unidade social mais que me irrita, desprezo-a.
Não vejo a hora de dizer o último adeus. Embora não sejam meus amigos.
Sempre suspeitei de quem diz irmãos à amigos. Família me aborrece. 
Sou bastardo. 
Sou solitário. 
Sou do frio. 
Não faço e nunca farei parte da horda festeira que nada sabe de heróis e suas lutas. 
E quem nos leva? A quem cantamos às vitórias? 
Onde há de haver o campo em que nossas espadas encontrem serventia?
Certamente longe desta terra improvável, de patriotismo idiota, laços violáveis como os bolsos de seu povo. Suas festas abobadas, movidas a cristianismo e as pífias músicas de feriados. Terra de tolos!
Odeio privilégios e privilegiados. Crianças e toda a sua suposta beleza. Velhos e toda a sua sabedoria ignóbil. 
Sou do mundo dos homens. E cada dia preciso mais desta virtude masculina. Da força viril, da lealdade camarada e das risadas do mundo entediado. A morte não nos espera. Ela é nosso caminho. Que seja longo! Brindemos!
Gosto da masculinidade honrosa. Não tenho paciência para a moda dos dias de hoje, em que todos são tudo, e com isso, na verdade nada são. Basta conhecer filosofia. 
Sou maior. Sou filho da espada. Nada sei das famílias sanguíneas. Os clãs são patéticos aos olhos dos soldados. Feitos para serem pilhados.
Se muitos tem nomes, eu tenho O sobrenome. 
Sou GUERREIRO. 
Ainda assim, bastardo. 

Obrigado amigos. 





sexta-feira, novembro 07, 2014

Dedos dados

Esta é uma postagem cópia. Cópia de uma conversa com uma pessoa muito querida. Resgatei porque esses dias, lembrei ouvindo noutra conversa, o quanto as mãos conversam, como diz o poeta. Então, nem o tempo que me toma todo o tempo, consegue me tirar do dever de recordar este episódio. Serei responsável e omitirei alguns detalhes. O que importa é que "O amor bate na aorta", como disse o mineiro mais doce que já houve. 

Resolvi fazer algo que já deveria ter feito há tempos e não tive coragem. Talvez como meta de tentar melhorar. Sei que você está namorando com outra pessoa, mas o episódio que quero comentar é mais antigo, quando você namorava a Pessoa, uma moça queridíssima, colega de trabalho. Eu sempre conversava muito com ela, era uma pessoa muito especial daquele lugar, porém ela nunca havia me dito que vocês namoravam, embora eu sempre comentasse dos meus interesses acadêmicos e militantes em prol da luta anti-homofobia. O fato é que vocês estavam na frente do prédio, ali perto do corrimão da escada, e eu estava saindo de lá, provavelmente finalizando meu dia de trabalho. Quando saí, nossos olhares se cruzaram por um brevíssimo momento, e eu percebi que vocês estavam de mãos dadas - timidamente - melhor seria dizer de "dedinhos dados". Nesse instante, presenciei uma das cenas mais tristes da minha vida, vi a Pessoa, desconcertada e assustada, apressadamente soltar seus dedos. Para outros observadores, isso não seria nada de mais, acho mesmo que só um olhar treinado, de um semelhante quando vê um igual como você mesma diz, poderia enxergar este ato de um milésimo de segundo. Contudo, bastou para eu chorar a caminho de casa. 

O que quero te dizer é que fiquei chateado não com a desconfiança da Pessoa, isto é perfeitamente compreensível, mas com a necessidade da desconfiança, com o receito de ser descoberta. Este temor é tão terrível porque tornou concreta a insegurança de uma moça que merece ser plenamente feliz e não estava fazendo nada reprovável, estava fazendo sim, algo louvável, apenas e lindamente segurando a mão, os dedos da pessoa amada. 

Queria te agradecer pela sua força, pela sua docilidade e pelo seu esforço em viver o Amor. Queria muito um dia ter mais intimidade pra falar isso para a Pessoa e dizer que serei sempre um combatente do lado de quem ama, de quem deseja apenas ser o que é. Como você era a outra pessoa deste episódio, resolvi aproveitar e te dizer isso. 

Contem comigo sempre!


terça-feira, outubro 21, 2014

May

Há dias que não é possível falar. Há dias que é impossível não falar.

Assisto há tempos histórias. Vidas me tocam. A ilusão é encontrar algo mais importante que viver.

Ouvindo canções dadivosas, quero presentear a amiga de todos os tempos.

A verdade é que queria muito contar ao mundo a história de vocês. A história de Maio, Somos 11, 13 e 14. Honro-me em fazer parte, ínfima parte, deste romance.

Tanto já aconteceu. E a década trouxe-os de novo. Então Cronos era verdade?

Apenas salvem esta maravilha. Poucos sabem ou vivem. Amor desses em que a Lua é palco, em que anos são horas, em que o sonho é sempre a Verdade deveriam ser obrigatórios. Escolas deveriam nos treinar para tais êxtases. Imaginem que alegria ir a uma aula, sentados ao redor da fogueira, ao som das homenagens para aprender a amar!!!

Que este mundo ainda tenha a chance de assistir a esta mágica lembrança.

Durmo mais feliz por saber que há no mundo a esperança. Se não acreditarem mais,  apenas recordem.

Suas presenças tornam a Vida mais habitável.




sexta-feira, maio 23, 2014

TYRion Lannister

É completamente impossível não falar deste personagem. É inconfundível a força que emana de Tyrion. Ao começar a escrever percebo que seu nome traz TYR, o jovem deus guerreiro nórdico. E outra coincidência. 
Por um daqueles acasos do destino, eu, fanático por Games of Thrones, deixei semana passada de assistir o episódio imediatamente após ter sido disponibilizada a cópia legendada. Assisti mais tarde. Após meu dia. E nem foi porque estava ocupado com os deveres da "bolsa" (aquela que poderia ter que devolver se desistisse), muito pelo contrário, estava "de boa". Coisas que nunca saberemos a resposta. Mais uma. 

Quando vi a cena estonteante não sabia o que pensar, o que sentir. Um turbilhão passava pela minha cabeça. Primeiro, a certeza de que mais pessoas deveriam assistir. Contudo, assistir não significa compreender. Em tempos de tanta punheta acadêmica com sua famosa verborragia e seu blá blá blá super hiper mega power, lembrar do tio Goffman ninguém lembra... Cadê o ESTIGMA galera? Ah, sumiu, porque agora é maravilhoso ser "queer"... Saco! E aí vem todo o vocabulário que pra nada serve, nada muda (só o lattes de alguns)...

Assim, ver Tyrion explodindo e esfregando na cara de seus algozes: "Eu não matei o rei Joffrey, mas eu gostaria de tê-lo feito. Eu gostaria de ter sido o monstro que vcs pensam que eu sou. [...] Eu não darei minha vida para o assassino de Joffrey. E eu sei que aqui não haverá justiça. Então eu vou deixar os Deuses decidirem o meu destino. Exijo um duelo para meu julgamento" é glorificante. No melhor estilo "Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês". Aquele anão, cheio de marra, com um senso ético inigualável, com aquela inteligência destinada a pouquíssimos me lembrou tanta coisa... A identificação era quase imediata. Ele preferia a morte a aceitar pacatamente os abusos de outros. Como não ficar tocado? Como não compreender sua excelência? Como não reverenciá-lo?

Quanta emoção ao assistir sua valentia, tão incomum nos dias de hoje, nessa espécie precária que se auto-intitula "Homo sapiens", ao não negar, em nenhum momento, mesmo após a pérfida traição de sua "whore". Ele havia se iludido, acreditou que poderia ser amado. Mas a espécie que ele buscava Amor desconhece esse sentimento. Freya há tempos abandonou este povo, e um verdadeiro guerreiro de outros tempos não encontraria Amor nos braços dos humanxs. Para elxs, amar é coisa tola, fútil, descartável. Tyrion é um Leão. Várias "whores" diriam sem medo, sem ética que o amam... O que desejam nada mais é que o velho metal aurum... Contudo, como guerreiro ele não negou seus sentimentos, mesmo sabendo que tinha sido traído. E seu olhar ao ver a traição brutalmente me carregou para o território da dor.

Ainda assim, ele tem mais cartas na manga. Ao pedir auxílio ao seu amigo defensor de outrora, aceita sem insistência que ele não o defenda no combate. Aceita seu destino: "lutarei eu no duelo, e farão canções sobre esse dia". Novamente, foi impossível não perceber o espelho. Príncipe Oberyn, outro ser vindo de outras terras, aceitou lutar em seu nome. O nome era vingança. Sem saber, também era justiça. Ele nunca viu um mostro em Tyrion. Um pequenino apenas, monstro nunca. 

Então pensei, quando o saco da bolsa compulsória encerrar, o primeiro livro que lerei será "As Crônicas de Gelo e Fogo". Meu coração, apesar da turmalina negra, merece. 
E digo a você Tyrion, onde quer que esteja, em qual máscara monstruosa viver, saiba: se Oberyn desistisse haverá sempre um Guerreiro do Sul para lutar em seu nome!

                                     
                                                                 

                                                                                     Viva TYRion! 


quarta-feira, maio 14, 2014

Andros

Eu sou.

Eu sou muitos.
Sou tantos que muitos ainda não sabem.
Sou apenas aquele que é.
Sou treze.
Sou Touro. Guardião. E lobo.
Sou filho intenso da Imensidão.
Sou este. Não sou tão pouco, e sou para mim o que de todos não posso, contudo, nasci de mim.
Eu.
Apenas o garoto de guerra, que ama a História média, e dela sobrevive, ou até a fera que desmente sua força em flores tão surdas.
Sou o gosto perdido dos que lutam até a escuridão, e ensino a Arte das batalhas, não sem desejo, sonhos, vontades, Espírito. Não tenho medo do Medo.
Luto. Venço. Se sou a coragem, todos os lugares são meus. Eu quero, eu vou.
Andros. André.
Sou a alegria da Vida vivida em dias e noites. Não me canso. Conto pro Céu de Lua, Lucas. Vida és minha, sou teu! Mistério abençoado!
Sou quem Ama e meu Amor se faz completo. Tenho a plenitude do dentro. Juro a Honra dos Amores.
E quem me segue? Tenho a fé de levar aos dias que se seguem, o ensinamento dourado: o Amor é a Lei.
Sou pouco, que todos desconhecem. E sou muito, que poucos conhecem. Tenho o caminho de labirinto. Tenho as chaves. Entretanto, apenas é minha a Espada e meu escudo.
Quem tomou-me por Eu?
Sou, então, para sempre, o Grande GUERREIRO MENINO.



sexta-feira, maio 09, 2014

Anonimato

Estava pensando no anonimato. Lembrei de quem nunca esqueço. Aquele que no nome é simplesmente Pessoa. E ora, eu que deveria estar no sono ou cumprindo meus deveres, resolvi ler. Sempre acalma.

Porque é preciso ser visível? Quem é? Somos tantos, como ele mostrou. O que importa um nome?

Deve ser meu inferno astral. Preciso de férias. Preciso desassossegar. Ele nos ensinou a ser heterônimos. 

Aqui está:

262: 

Cheguei hoje, de repente, a uma sensação absurda e justa. Reparei, num relâmpago íntimo, que não sou ninguém. Ninguém, absolutamente ninguém.
     Quando brilhou o relâmpago, aquilo onde supus uma cidade era um plaino deserto; e a luz sinistra que me mostrou a mim não revelou céu acima dele. Roubaram-me o poder ser antes que o mundo fosse. Se tive que reencarnar, reencarnei sem mim, sem ter eu reencarnado.
     Sou os arredores de uma vila que não há, o comentário prolixo a um livro que se não escreveu. Não sou ninguém, ninguém. Não sei sentir, não sei pensar, não sei querer. Sou uma figura de romance por escrever, passando aérea, e desfeita sem ter sido, entre os sonhos de quem me não soube completar (1).
     Penso sempre, sinto sempre; mas o meu pensamento não contém raciocínios, a minha emoção não contém emoções. Estou caindo, depois do alçapão lá em cima, por todo o espaço infinito, numa queda sem direcção, infinitupla e vazia. Minha alma é um maelstrom negro, vasta vertigem à roda de vácuo, movimento de um oceano infinito em torno de um buraco em nada, e nas águas que são mais giro que águas bóiam todas as imagens do que vi e ouvi no mundo - vão casas, caras, livros, caixotes, rastros de música e sílabas de vozes, num rodopio sinistro e sem fundo.
     E eu, verdadeiramente eu, sou o centro que não há nisto senão por uma geometria do abismo; sou o nada em torno do qual este movimento gira, só para que gire, sem que esse centro exista senão porque todo o círculo o tem. Eu, verdadeiramente eu, sou o poço sem muros, mas com a viscosidade dos muros, o centro de tudo com o nada à roda.
     E é, em mim, como se o inferno ele-mesmo risse, sem ao menos a humanidade de diabos a rirem, a loucura grasnada do universo morto, o cadáver rodante do espaço físico, o fim de todos os mundos flutuando negro ao vento, disforme, anacrónico, sem Deus que o houvesse criado, sem ele mesmo que está rodando nas trevas das trevas, impossível, único, tudo.
     Poder saber pensar! Poder saber sentir!
     Minha mãe morreu muito cedo, e eu não a cheguei a conhecer...

domingo, abril 13, 2014

A beleza do normal

Há dias que precisam ser contados. Dias comuns, dias sem novidade alguma. Dias normais. E quem diria, eu - anormalmente - iria falar de normalidade. Quem acredita? Quem me conhece, oras! 

Naquele calor entediante, sol me liquefazendo, eu "escorro" pro mercado. Quase como atividade masoquista, escolho fazer compras no auge do meio-dia. Explico: teve jogo de volei na TV. Outra descoberta: prefiro esportes à reuniões acadêmicas-filosóficas-revolucionárias-salvadoras da mundo... Ah, quanto orgulho de mim!

O preço assusta. Os produtos não atraem. A cesta vai crescendo. Esbarro numa promoção. Taurino por natureza, desconfio. Mas eram só pequeninas bebidas lácteas de café gelado. Uma gostosura! Quem levasse dois, ganha um. Explico "again": comprando dois produtos, concorria ao sorteio de uma mochila. Bonita, não fosse as cores da copa. Felizmente o azul prevalece. Mochila de trilha. Deu aquela saudade apertada do Anhagava e do Itupava. Pensei: Ora, no meu atual estado de amante esportista (as corridas nem incomodam tanto o coração, não se pode dizer o mesmo dos joelhos, mas isso é uma outra história) aquele saco de viagem me cairia muito bem. 

Imediatamente pus as duas bebidas na cesta. Mais uma olhadela nos produtos em promoção e a decisão segura de que é melhor evitar gastos desnecessários. Poupar é um verbo que exerce atração sobre mim.Fui à caixa e a alegria primeira: não tinha fila! Um bom-dia sulista foi meu cumprimento. Crédito ou débito? Aquele cartão azul só permite débito, e o que isso tem demais? Tem eu! Eu. Só eu. Paguei, peguei meus mais novos pertences, ou na linguagem marxista, minhas mercadorias e perguntei onde pegava meu cupom. Na recepção. Fui até lá. 

O suor jorrando de mim tal qual fosse eu um geiser humano não me impediram de completar a árdua tarefa: buscar meu cupom. Avistei a moça da recepção e perguntei da promoção. Trabalhadora de fim de semana me respondeu sem muita amistosidade: qual concurso? Informei a marca. Ela pede a nota fiscal (depois de uma leve má-vontade encontra meus produtos adquiridos) e me dá o cupom. Antes, contudo, vem a inquisição: a identidade moço! E num simples passe de mágica, da minha cartola-carteira não tirei o coelhinho (defendo animais e condeno estas práticas). A magia era: a mochila era bônus. A vitória já é minha. 

Preenchi o cupom. Coloquei-o, um tanto encharcado, na urna. Juntei minhas compras e fui me liquefazer mais um pouquinho. Como outro dia qualquer, um dia feliz. 
Um dia normal.